Simples e inocente
Ronaldo Magella
O tempo
passou e fiquei chato, talvez alguns até digam, antes do tempo, envelheci antes
da hora, da idade chegar, do momento certo. Até pensei em começar este texto
dizendo que havia amadurecido com as escolhas que fiz na vida, com os erros,
com as lágrimas derramadas, com o suor escorrido, mas dizer-me amadurecido,
melhor, mais experiente soaria muito vaidoso e pretensioso, melhor mesmo me
definir com chato e descolado da realidade.
Hoje passei o
dia nessa busca interior, nas minhas reflexões íntimas, buscando minhas
respostas e fazendo minhas perguntas, o que fiz, por onde andei, qual caminho
estou a seguir, mas a única conclusão que pude chegar é que, não sou mais o
mesmo, mudei e mudo, em cada livro, nas músicas, nos filmes, nos textos, na
escrita, sempre estou procurando me encontrar e ao saber-me de mim necessariamente
tenho que mudar, deixar de ser quem sou para me tornar outro, não sei se
melhor, mas, penso, talvez, mas consciente.
Não suporto mais convenções sociais, sorrisos
forçados e alegrias ligeiras e infantis, vivo no mundo sem ser do mundo, estou
preso e como um prisioneiro busco a minha liberdade, cumprir minha pena, pegar
pelos meus erros, sofrer a minha própria tragédia e caminhar de volta ao
começo, e, o começo é a simplicidade, o início é a inocência. É isso, quero e
almejo ser simples, ser inocente, poder e conseguir olhar para qualquer pessoa
sem fazer julgamento ou aferição, sem culpar ou ferir, apontar ou violentar,
desejar ou oprimir.
Não saberia
dizer se isto é bom ou ruim, se é normal ou estranho, sei apenas que faz parte
de mim. Até chego a pensar que o pensamento, a reflexão que se abre em torno de
si mesmo é uma sina, uma cruz, um peso, pois se está a todo o momento
interrogando-se, querendo-se, procurando saber-se quem se é, por que se vive
assim, pensa-se desta ou daquela forma, e nem sempre pensar, esse pensar, o
pensar-se, buscar-se, refletir-se é algo prazeroso.
Você pensa e
muda sua relação com o mundo, com as pessoas, tenta se colocar no lugar do
outro, investigar todos os ângulos possíveis, todas as formas concretas e reais
que a sua mente pode enxergar. Devo admitir que nem sempre é bom, suave e
simples, traz muita angustia, medo e solidão. Já até pensei em querer ser
normal, igual, comum, como todos, viver o lado simples de tudo, juntar-me ao
todo, mas talvez seja algo do qual não posso fugir, ser o que sou, pensar o que
penso, é um peso que tenho que carregar.
A verdade é
que você muda, muda e fica cada vez mais sozinho, uma solidão existencial, íntima,
interior, individual. Vamos assim vivendo e ficando mais chatos e intolerantes,
já não suporto alegrias menores ou baratas, sexo grátis sem amor ou beijo sem
paixão, abraço sem carinho ou afeto sem sentimento, as coisas agora precisam
ter um sentido, uma razão, um motivo, não para o mundo, mas pelo menos para
mim, não preciso do sentido do mundo, nem das pessoas, cada um que busca o seu
motivo real e sincero para continuar.
Até penso em
coisas, pessoas, momentos, histórias, mas desisto, de tento pensar penso que
não vale mesmo a pena tentar, percebo que é apenas mais um momento passageiro e
comum, vazio e inútil.
Verdade
também que tornei-me mais pessimista e seco, árido e descrente, não acho mais que
possa ainda um dia novamente me apaixonar ou que venha a acreditar em amor, que
possa gostar de alguém, que escreva versos de amor e cartas de paixão, não sei
se ainda será possível, mas não me olhem com olhares tortos, nunca quis ser
assim, o mundo, a vida, as pessoas, os afetos, os erros, as escolhas me
tornaram assim.
Confesso que
esboço reações, invento desculpas, tenho minhas crises de esperança e euforia,
mas só preciso mesmo olhar ao meu redor e perceber o quanto o mundo é mesquinho
e egoísta, orgulhoso e indiferente e volto novamente a ser e pensar o que sou e
como sou, o que sinto e imagino.
Minha luta
maior é comigo mesmo, não quero vencer o mundo, mas mudar-me e vencer-me, viver
aquilo que acredito, conforme li certa feita e carrego comigo a frase, a qual
diz, viver é comprometer-se com aquilo que você acredita, e isso muitas vezes,
devo admitir, me falta, não tenho coragem, ânimo ou vontade, sou fraco e
frágil, mas tenho pulso para outras coisas menos importantes e me culpo por
isso.
Mas, pensando
ainda e por fim, a vida é assim mesmo, não somos livres, nem nossas escolhas
são totalmente nossas, somos o que somos e assim seremos.
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